Espanha identifica vítimas de colisão de trens diante da angústia das famílias
A Espanha intensifica nesta sexta-feira (30) a operação de identificação das vítimas da colisão de trens que deixou ao menos 69 mortos, diante da angústia de muitas famílias que continuam sem notícias de seus parentes.
A tragédia, que aconteceu a poucas semanas das eleições gerais, é o segundo acidente ferroviário grave do ano na Espanha e aprofundou as dúvidas sobre a segurança do sistema ferroviário de alta velocidade, antes motivo de orgulho nacional.
Na cidade de Toledo, cujo necrotério concentra os trabalhos de identificação, dezenas de parentes dos passageiros aguardam notícias com muita ansiedade, dois dias após a tragédia.
Javier Barrio procura a esposa, que estava em um dos trens acidentados. Era a última viagem de trabalho antes da aposentadoria.
"Estamos fazendo o que podemos, chorando, tenho meus dois filhos aqui por perto que estão me apoiando muito, mas passamos momentos muito difíceis", afirmou. "Não tenho a confirmação do falecimento, mas "as possibilidades de encontrá-la com vida são "remotíssimas", admitiu.
Depois de uma reunião com os serviços de emergência no município vizinho de Urda, onde ocorreu o acidente, o primeiro-ministro Pedro Sánchez reiterou seu "compromisso" de avançar na identificação.
"Estamos trabalhando de maneira incansável, todos os poderes do Estado (...) para tentar oferecer e fornecer o máximo de informação quanto antes, de forma fidedigna, aos familiares das vítimas", afirmou.
Na manhã de quarta-feira, um trem da empresa estatal Renfe, que havia partido de Madri rumo a Sevilha, atingiu em alta velocidade um trem da companhia Iryo, que estava parado na via, a 150 quilômetros ao sul da capital.
Emiliano García-Page, presidente da região de Castilla-La Mancha, informou que "há 70 denúncias de desaparecimento".
As denúncias podem coincidir com os falecidos, que em sua maioria ainda não foram identificados. Para facilitar os trabalhos, os familiares forneceram amostras de DNA.
"Não descartamos que possa haver mais mortos", advertiu García-Page, ao detalhar que, além da recuperação de "corpos completos", os socorristas recolheram "até 31 bolsas mortuárias com pedaços de corpos e isso, como podem compreender, é de enorme complexidade na hora da identificação".
Até o momento foram realizadas "48 autópsias e foram notificadas cinco identificações a familiares das vítimas", informou na quinta-feira o órgão judicial responsável pela operação.
Além disso, 39 feridos permanecem hospitalizados, mas todos apresentam "uma evolução razoavelmente positiva", segundo o presidente regional.
Auxiliadas por três enormes guindastes e cães, as equipes de emergência prosseguem nesta sexta-feira com as buscas por vítimas entre os ferros retorcidos de vários vagões, mas "há menos por descobrir", afirmou Esther Padilla, porta-voz do governo de Castilla-La Mancha.
- Colisão a 200 km/h -
A investigação das causas do acidente prossegue, em meio ao choque de um país em que o trem é um meio de transporte muito utilizado.
Em janeiro, outro acidente entre dois trens de alta velocidade provocou a morte de 46 pessoas.
O ministro dos Transportes, Óscar Puente, que descreveu o novo acidente como "verdadeiramente inverossímil", disse que os fatos começaram com uma falha de informática que obrigou vários trens a parar na via.
Mas, segundo os primeiros indícios, pouco depois foi dada uma ordem "equivocada", a partir do centro de controle em Madri, para que o trem da Renfe retomasse a marcha em velocidade normal.
O trem teria colidido com o outro, que estava parado, "a uma velocidade estimada entre 160 e 200 km/h", segundo a autoridade independente que investiga o acidente.
"Há uma confiança abalada no sistema de alta velocidade do nosso país", reconheceu nesta sexta-feira Pedro Sánchez, diante das crescentes críticas da oposição de direita, que exige "responsabilidades políticas".
Após várias crises, o líder socialista busca a reeleição no pleito antecipado de 29 de novembro, mas as pesquisas são desfavoráveis a seu partido.
"O trabalho do governo não é apenas fazer o diagnóstico, mas conhecer quais são as causas e oferecer soluções para que uma tragédia desta magnitude (...) não volte a acontecer", afirmou.
O.Rivas--HdM